Nos últimos dias, a capital paulista foi palco de um movimento significativo que atraiu a atenção de diversos setores da sociedade: a greve nacional dos entregadores. Esta mobilização, que teve início no dia 31 de março de 2025, bloqueou pontos estratégicos de grandes shoppings e estabelecimentos comerciais da cidade, com o intuito de pressionar as empresas de aplicativos de entrega a atenderem as reivindicações dos trabalhadores. Em São Paulo, a greve afetou diretamente centros comerciais como Eldorado, Morumbi e West Plaza, além de impactar o funcionamento de redes populares de fast food. A mobilização não foi restrita à cidade, com protestos também ocorrendo em cerca de 60 outras localidades em todo o país.
A ação dos entregadores de aplicativos gerou grandes repercussões no serviço de delivery em São Paulo, especialmente nas regiões mais movimentadas da cidade. Com o fechamento dos pontos de coleta em shoppings importantes, como o Center 3 e o Tucuruvi, muitos estabelecimentos ficaram impossibilitados de realizar entregas. Um levantamento feito pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de São Paulo (Abrasel SP) revelou que empresas que operam exclusivamente com o iFood enfrentaram uma queda de 100% nas entregas durante a paralisação. Já os comerciantes que utilizam outras plataformas, como Uber Eats e Rappi, perceberam uma redução de 70% a 80% no volume de pedidos.
Os entregadores, em sua grande maioria trabalhadores autônomos, alegam que as condições de trabalho e a remuneração oferecida pelas plataformas são insuficientes para cobrir os custos e os riscos envolvidos no trabalho. A principal reivindicação dos grevistas é o aumento na tarifa mínima por corrida de R$ 6,50 para R$ 10. Além disso, os trabalhadores exigem uma elevação no valor pago por quilômetro rodado, de R$ 1,50 para R$ 2,50, e a limitação das entregas realizadas de bicicleta a um raio de 3 quilômetros. Outra demanda importante é que os entregadores sejam pagos integralmente, mesmo nos casos em que os pedidos sejam agrupados na mesma rota.
A greve se intensificou no segundo dia de mobilização, quando os entregadores decidiram bloquear os pontos de coleta em algumas das principais áreas comerciais de São Paulo. Entre os locais afetados estavam shoppings como o Market Place e o Interlagos. Em algumas unidades do McDonald’s e Burger King, o movimento também gerou impactos, resultando em filas e longos períodos de espera para os consumidores. A estratégia de bloquear esses pontos foi uma tentativa de pressionar as plataformas a abrir uma negociação mais eficaz, já que, durante o primeiro dia da greve, um grupo de entregadores protestou na sede do iFood, em Osasco, e obteve uma resposta negativa da empresa.
O tom de descontentamento entre os entregadores é claro. “A empresa lucra bilhões enquanto a gente mal consegue cobrir as despesas do dia a dia”, afirma Genilson Soares, um dos entregadores presentes na greve. A situação se agrava com o fato de que, em muitos casos, os entregadores arcam com custos elevados, como a manutenção das motos, além de enfrentarem condições precárias de trabalho, como a falta de segurança e a exposição constante a riscos no trânsito. Para muitos, o movimento é uma forma de exigir um reconhecimento mais justo pela função essencial que desempenham, especialmente durante a pandemia, quando foram considerados heróis por muitos.
Além das questões salariais, os entregadores também criticam a falta de consideração das plataformas para com suas condições de trabalho. De acordo com Renato Assad, outro entregador que participou da greve, as plataformas não estão levando em conta o tempo em que os entregadores ficam logados no aplicativo aguardando novos pedidos, nem os custos indiretos do trabalho. “Os dados que eles apresentam são manipulados para dar a impressão de que ganhamos bem, mas a realidade é bem diferente”, diz Assad, reforçando a insatisfação com a postura das empresas.
As empresas de aplicativos, como o iFood, tentaram minimizar os impactos da greve, afirmando que a renda média dos entregadores teve um crescimento de 5% acima da inflação no último ano, conforme um levantamento do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). No entanto, essa afirmação foi prontamente contestada pelos trabalhadores, que destacaram que os dados não consideram todas as variáveis que envolvem a atividade, como o tempo ocioso e as despesas extras. A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Abomitec), que representa as principais empresas de aplicativos de entrega, afirmou respeitar o direito de manifestação dos entregadores, mas ainda não apresentou propostas concretas para resolver a insatisfação da categoria.
O impacto da greve não se limitou aos entregadores e empresários. A mobilização chamou atenção também para a relação de trabalho na economia de plataformas, um modelo que tem gerado discussões sobre a regulamentação e as condições de trabalho dos motoristas e entregadores. A greve pode ser vista como um reflexo do crescente descontentamento com as desigualdades no setor e da busca por mais direitos e melhores condições para aqueles que, muitas vezes, são invisíveis para as empresas que os contratam.
Em suma, a greve nacional dos entregadores em São Paulo revela a insustentabilidade de um modelo de trabalho que, embora tenha conquistado grande expansão nos últimos anos, ainda enfrenta profundas lacunas em termos de condições de trabalho e valorização. As demandas dos entregadores, embora centradas em questões salariais, também refletem a busca por um reconhecimento mais amplo da importância dessa categoria no funcionamento da economia moderna. À medida que a mobilização continua, será essencial acompanhar os desdobramentos e a resposta das empresas, que precisarão encontrar soluções que garantam um equilíbrio entre o lucro e as condições dignas de trabalho para seus trabalhadores.
Autor: Pyppe Tand